sexta-feira, 5 de julho de 2019
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
A CULPA É DA ÉRIS
Costuma dizer-se que «a saúde é um estado transitório que não augura
nada de bom». Felizmente, em relação ao amor, não se passa o mesmo, pois há
amores eternos, apesar de, muitas vezes, eles serem dificultados pela deusa
Éris.
Foi, de facto,
essa deusa que, não tendo sido convidada para o casamento dos pais de Aquiles,
resolveu comparecer no Olimpo e lançar uma maçã de ouro para o meio de três
deusas: Hera, Atena e Afrodite. Esse pomo causou uma grande confusão na morada
dos deuses, pois tinha a seguinte inscrição: «Para a mais bela!» As deusas
tentaram logo apoderar-se do fruto dourado bem como da distinção indicada. Zeus
teve de enviar à terra Hermes, o mensageiro dos deuses, para trazer à sua
presença o homem mais belo da terra, Páris, príncipe de Troia, a fim de servir
de júri à disputa e ser ele a entregar esse «pomo da discórdia».
Como os deuses
da mitologia partilham com os homens não só as suas virtudes, mas também os
seus defeitos, qualquer uma das três deusas tentou seduzir Páris, subornando-o:
Hera prometeu-lhe o poderio sobre toda a Europa e Ásia; Atena comprometeu-se a torná-lo
o homem mais sábio da terra; e Afrodite garantiu-lhe o amor da mulher mais bela
da terra.
Não é preciso
dizer mais nada, pois já todos sabem que essa mulher era Helena, a rainha de
Esparta, cujo rapto provocou a famosa guerra de Troia.
Com a
destruição de Troia, através da intervenção de Hera e Atena, que resolveram
colocar-se ao lado dos gregos e assim vingarem-se do juízo de Páris, o povo troiano,
que conseguiu sobreviver, teve de procurar uma nova terra. Eneias, herói
troiano, filho de Anquises e da deusa Afrodite, foi incumbido de fundar uma
nova «Ílion» (Troia). Virgílio, na sua epopeia Eneida, conta-nos que essa terra foi o Lácio, na Itália, onde
contactaram e se fundiram com os povos latinos. Passadas algumas gerações,
Rómulo e Remo, descendentes de Eneias e filhos da Reia Sílvia e do deus Marte,
fundaram a cidade de Roma no monte Palatino.
Apesar de Afrodite, a deusa do amor, conhecida como Vénus na
mitologia romana, ter provocado tamanhas guerras no mediterrâneo oriental, à
mercê de Éris, conseguiu ainda assim pôr o seu filho Eneias e a sua geração a
fundar a cidade de Roma (Amor, escrito ao contrário). Se calhar, por isso,
aquela cidade é hoje conhecida como a ciAmor vincit
omnia (O amor vence tudo).
dade do amor. Apesar das dificuldades,
ele consegue aí sobreviver: quarta-feira, 31 de outubro de 2018
Sede
Tocado por uma tímida brisa, que me
desperta duma efémera sonolência, abro e fecho repetidamente as pálpebras para
me certificar do local em que me encontro. Ao erguer a vista, o Pártenon
lança-me, ao longe, adrenalina nas veias pela janela do hotel em que me encontro
hospedado, mesmo à frente da praça Sintagma. Os meus olhos saltam pela janela e
perscrutam o parlamento e os seus Evzones «de bela
cintura» que marcham num ritmo hipnótico levantando bem alto as suas pomposas
botas de 3 quilos.
Há
três dias que me encontro em Atenas e já observei a acrópole das mais diversas
perspetivas e distâncias. Da mesma forma que “todos os caminhos vão dar a
Roma”, aqui todos os olhares vão dar à acrópole. Felizmente posso pernoitar no
último piso do hotel; sinto-me quase ao nível daquele templo dedicado à deusa
da sabedoria e mais perto do Olimpo.
Esse templo dedicado a Atena e erigido
durante o século dourado de Péricles tornou-se num dos monumentos mais
conhecidos em toda a humanidade e também o símbolo e a sede da democracia grega. De facto, essa enorme construção física do
século V a.C. transformou-se num grande testemunho e numa grandiosa obra moral
que herdámos dos gregos – a democracia.
Deambulo pelas ruas e observo rostos trabalhadores
insatisfeitos pela supremacia retirada com a recente crise. Observo-lhes a alma
helénica dos tempos homéricos em que venceram Troia. Ultimamente, passados
tantos séculos, é a Troi[k]a e também a Europa sua herdeira, que lhes subtraem
os direitos e os ensinamentos que outorgaram. Reparo ainda nos turistas que
parecem mais entretidos a beber frappêse a adquirir recordações do que a absorver os ensinamentos e a cultura da
Hélade.
Junto à Ágora vejo um rosto coberto que pede esmola no meio de dois andrajosos filhos menores. Parecem-me refugiados; talvez sírios. Os olhares opacos das crianças escondem talvez a morte da figura paterna ou até de algum irmão num naufrágio no Mediterrâneo.
Junto à Ágora vejo um rosto coberto que pede esmola no meio de dois andrajosos filhos menores. Parecem-me refugiados; talvez sírios. Os olhares opacos das crianças escondem talvez a morte da figura paterna ou até de algum irmão num naufrágio no Mediterrâneo.
Felizmente a moral grega continua a dar cartas e recebe estes imigrantes; não os impede de entrar nem os envia para trás, para a morte quase certa donde fugiram. Quando decidiram não fechar as suas fronteiras às vagas de refugiados, mostraram que a sua cultura milenar é a mesma dos pais
da filosofia, da geografia, da história, da matemática, da medicina, da
política, bem como de muitos outros pensadores, artistas e escritores, que
saciaram a sua sede na fonte das águas do Parnaso e na inesgotável alma mater
helena, nossa egrégia avó.
domingo, 1 de julho de 2018
quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
Grego – Língua Macária
A
vantagem de estudar uma língua milenar como o grego é conseguirmos alargar o
nosso léxico através de relações etimológicas feitas a partir de pequenas
palavras dessa língua helénica. Além disso, permite um aprofundamento da
história e da cultura gregas. Permite inclusive a compreensão de mitos e a sua
ligação a aspetos do nosso quotidiano.
De
facto, o mundo heleno antigo está tão presente no nosso dia-a-dia que não nos
apercebemos dessa herança. Desde o seu alfabeto – palavra
composta pelas suas duas primeiras letras: α alfa + β beta – até inúmeras palavras
presentes na política, na história, na filosofia, nas ciências e na medicina,
convivemos com ele diariamente. Graças a Hipócrates, considerado o pai da
medicina, temos mais de 75 mil termos ligados ao mundo médico. Alguns exemplos
disso são biópsia, patologia, leucemia, cardiopatia, endoscopia, osteoporose, hepatite,
estomatologia, otorinolaringologista…
A língua de Homero mostra-nos, por exemplo, que a palavra hipopótamo é composta
por duas gregas: ἵππος [hypos (cavalo)] e ποταμός [potamos (rio)], o que nos permite facilmente compreender que este
animal é considerado “um cavalo do rio”; também o segundo termo aparece na palavra
Mesopotâmia [μέσος (no meio) + ποταμός
[rio]; de facto, esse local está entre os rios Tigre e Eufrates. Esta língua do
saber possibilita ainda a compreensão da evolução semântica de certas palavras:
hipócrita [ὑποκριτἠς] era
um ator ou intérprete teatral, isto é, alguém que representava atrás duma
máscara. Hoje empregamos essa palavra quando nos referimos a alguém
dissimulado, pois “representa” com falsidade.
Podemos
ainda olhar para outros étimos gregos, que nos ajudarão a entender outras
palavras das mesmas famílias: glicemia
[γλυκύς (glykýs - doce) + αἷμα (haima - sangue)] explica-nos a glicose, a
hipo ou hiperglicemia, a glicerina…; Panteão
[πᾶν (todos) + θεός (theós – deuses)]
esclarece-nos a Pandora [todos os
dons - δῶρα]; a pandemia [algo que atinge todo o δῆμος - demos – povo]; a pandermite [inflamação que atinge toda
a pele – δέρμα]; e a panóplia [todas as armas - ὅπλα]. Também a πόλις (pólis – cidade) nos auxilia na compreensão de palavras
como acrópole [ἂκρος (ákros – parte alta)
+ πόλις], metrópole [μητός (mêtrós – mãe) + πόλις]; política [πόλις + τέχνη (tékne –
técnica/arte)], Constantinopla (cidade
de Constantino); Nápoles [νέα + πόλις -> nova cidade, construída ao lado de Paleópolis, cidade velha]...
Com a chegada do
inverno, regressa o frio [κρύος (krýos) cf. criopreservação] e ficamos mais suscetíveis a doenças [πάθος (páthos) cf. patologia]; por isso, por vezes, precisamos dum médico [ἰατρός (iatrós) cf. pediatra].
Se nos receitar um medicamento antipirético
[ἀντί + πυρός + τέχνη], vemos
que se trata dum fármaco com uma “técnica contrária ao fogo”, ou seja, é um
remédio contra a febre.
Polinésia,
Macronésia, Micronésia, Melanésia e Indonésia têm um étimo comum que significa
“ilha”. Conseguimos facilmente compreender que as ilhas podem ser muitas,
grandes, pequenas, negras, ou estarem situadas no Índico. Mais próximo de nós
temos também a Macaronésia [μακάριος (makários – feliz) + νῆσια
(nêssia - ilha)]. Daí considerarmos
as ilhas dos Açores, Madeira, Desertas, Canárias e Cabo Verde ilhas abençoadas/afortunadas/felizes.
Publicada por
Luís Reis
à(s)
15:36
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Etiquetas:
clássico,
etimologia,
grego,
língua,
macaronésia
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