quarta-feira, 27 de abril de 2016

Estou a ver-me Grego...


           Desde a Idade Média que se usa a expressão “ver-se grego” como sinónimo de algo difícil e que não se entende. Aliás, nesse tempo, quando algo aparecia escrito nessa língua, costumava empregar-se a expressão latina “Graecum est, non legitur” [É grego; não se lê]. Será que foi por isso que mudaram o nome a uma estátua que descobriram, no início do séc. XIX, numa ilha grega, Milos, quando a levaram para França? Vénus de Milo? Não deveria chamar-se Afrodite de Milo?
          A língua grega será assim tão difícil?! Não sei se se poderá comparar à dura guerra que os gregos venceram em Troia; ou à atribulada viagem de regresso de Ulisses a Ítaca; ou ainda à enovelada teia que a sua esposa, Penélope, teceu enquanto aguardava o seu regresso; ou também ao intrincado labirinto que o rei Minos construiu em Creta para enclausurar o horrendo minotauro; ou ao ousado voo de Ícaro; ou aos hercúleos trabalhos de Hércules (passo o pleonasmo); ou aos pacientes suplícios de Tântalo, de Sísifo e de Prometeu…
         De facto, para o estudo da língua helénica necessita-se, umas vezes, duma educação “ateniense”, cultivando a génese da democracia e, outras, duma educação “espartana”, cultivando a dureza do treino e do rigor. Realmente, a língua e a cultura da Hélade não são simples. Também Homero não terá tido uma tarefa fácil ao escrever as suas soberbas epopeias: A Ilíada e a Odisseia com uma estrutura e métrica tão rigorosas.
          Na verdade, o povo helénico legou-nos uma herança demasiado opulenta: foi berço da democracia; foi pátria de grandes matemáticos (Tales de Mileto, Arquimedes, Pitágoras, Euclides), filósofos (Sócrates, Platão, Aristóteles), geógrafos (Estrabão e Ptolomeu), historiadores (Heródoto e Xenofonte) e muitos outros. Algumas destas personalidades foram simultaneamente filósofos, astrónomos e matemáticos…
        Temos ainda o escultor Fídias, que projetou as duas mais famosas estátuas da antiguidade - Atena do Pártenon e Zeus de Olímpia. Também o pai da medicina (Hipócrates) foi grego. Além do já referido Homero, temos outros nomes na literatura grega (Aristófanes, Ésquilo, Eurípides e Sófocles). Aliás, este último criou, segundo Aristóteles, o exemplo mais perfeito duma tragédia – Édipo Rei. Não é por acaso que é das tragédias mais lidas e estudadas em todo o mundo. Além do mais, Sigmund Freud inspirou-se nessa tragédia para nos mostrar como é “complexo” um determinado período da infância das crianças. 
          Podemos ver-nos gregos com muitas palavras portuguesas com origem helénica, mas, se olharmos, por exemplo, para as cores daquela língua, perceberemos mais facilmente a sua ligação à nossa cultura: λԑυkϛ [leukós] significa branco, daí os leucócitos ou glóbulos brancos; ἐρυθρόϛ [eritrós] significa vermelho, daí os eritrócitos ou glóbulos vermelhos, ou até a própria Eritreia, país situado a norte da Etiópia, nas margens do mar vermelho; γλαυκόϛ [glaukós] significa azul, daí os glaucomas oculares terem a coloração azul; χλωρόϛ [klourós] significa verde, e de facto, o cloro tem essa coloração, ou podemos ainda confrontá-la com a clorofila (amigo do verde); e μέλαϛ [mélas] significa negro, daí a melanina ser um composto que confere uma coloração escura à nossa pele. 
  Estará, porventura, a língua grega assim tão distante de nós? Para muitos não será propriamente uma fonte onde se poderá beber das águas do Parnaso[1]; apesar disso, os nossos computadores continuarão a ser invadidos por cavalos de Troia (Trojans).


[1] Monte situado na Grécia junto ao sopé do Santuário de Delfos, lugar de peregrinação onde, na antiguidade, muitas pessoas procuravam o oráculo que lhes previa o futuro, através da inebriação da pitonisa ao serviço do deus Apolo.

1 comentário:

  1. Excelente reflexão. Óptima para os jovens estudantes de Filosofia e, para todos os que amam saber.

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