quinta-feira, 20 de maio de 2010

PARA QUÊ ESTUDAR LATIM?

       Dizia um velho professor de Latim: «Deus nos livre da mula que faz him e da mulher que sabe Latim». Nunca percebi muito bem o quis ele dizer com isso. Teimosia?! Sabedoria?! Deixo ao vosso critério a descodificação da mensagem desta frase, na certeza de ser preferível a imagem duma mulher que sabe Latim.
O Latim é conotado como uma língua que cheira a mofo, a colégios, a seminários e a padres. No entanto, utilizamos a nossa língua mãe mais vezes do que julgamos: concorremos a uma emprego e enviamos o Curriculum Vitae; mudamos de apartamento para comprarmos um duplex; compramos roupa na Vivere e na Decenio; saboreamos um gelado magnum; lemos E pluribus unum no emblema do Benfica; comemos chocolates Mars e queijos TerraNostra; bebemos águas Luso, Vitalis e leite Agros; folheamos as revistas Quo e Lux; adquirimos um Fiat Uno ou um Focus, com ou sem Turbo; lemos Primus inter Pares nos maços de tabaco SG Ventil e Veni, Vidi, Vici no Marlboro; lavamo-nos com Sanex; hidratamo-nos com Nivea; jogamos Lego; compramos na Vobis, na Natura e na Imaginarium; metemos gasolina Super; temos um telemóvel da Optimus ou um telefone com ligação à Novis; contribuímos para a Caritas; queixamo-nos à Quercus; relaxamos no SPA (Salus per aquam) de um Hotel; o nosso esquentador é Vulcano; usamos lentes Varilux; temos um primo que trabalha na Securitas; realizamos um exame Ad Hoc; possuímos um estilo muito sui generis; desejamos Carpe diem (aproveita o dia) ou fac ut vivas (goza a vida) aos nossos amigos; arranjamos um alibi (outro aí) quando vamos responder a tribunal (Domus Iustitiae); repetimos ipsis verbis um conselho que nos deram; passeamos no Forum; analisamos a narração in medias res; estudamos o Homo Sapiens e o seu Habitat; passamos à tangente; calculamos o rendimento per capita; a tabela periódica da Química está cheia de abreviaturas latinas; terminamos uma carta com um P.S. (Post Scriptum); etc (et cetera).
Será que já nos ocorreu que até o Inglês usa palavras latinas? Vejamos: exit significa “sair” em Latim e delete significa “destruir”. E os dias da semana? Nisto, os ingleses foram mais fiéis ao Latim que nós Portugueses: para os romanos o Domingo era o dia do Sol (solis dies) – os ingleses chamam ao Domingo “Sunday”, ou seja, o dia do Sol; a Segunda-feira era o dia da Lua (lunae dies) – em inglês diz-se “Monday”, isto é, o dia da Lua;...
Podíamos aprender também com a Alemanha: o alemão é uma língua não românica, pertencente às línguas germânicas. No entanto, é o país da Europa onde o Latim mais se aprofunda. Em Portugal, há muito que se fala de insucesso à disciplina de Português; o nosso Ministro da Educação sabe que uma forma de atenuar esse insucesso seria estabelecer, pelo menos, um ano de Latim obrigatório, no ensino secundário. Evitar-se-ia que, qualquer dia, seja regra escrever sem regras. Se tal acontecer, a culpa não será nossa, pois errare humanum est. 

2 comentários:

  1. Inteiramente de acordo Sr. Luís, nada melhor que perceber para assimilar. Temos de perceber a origem "Latim" para assimilar conhecimentos e poder usá-los nos dias que correm(Língua Portuguesa,"ainda"). Estar aqui na Espanha ajudou-me a entender isso quando via colegas de ciências a fazer comentários linguísticos para os quais eu nao tinha bases e a diferenca é: tiveram esse tal ano de Latim....

    Abraco

    Mário Rafael

    P.S. O c com cedilha não funciona...

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  2. Muito bom esse teu texto. Hoje terei um seminário e esse teu texto veio somar para minha apresentação sobre o latim nos dias atuais. obrigado por ter postado e claro que indiquei a autoria e o blog também.

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