quinta-feira, 23 de abril de 2015

14 razões para não estudar Latim



Dizia um velho professor de Latim: «Quanto melhor for a raiz duma árvore, melhores serão os seus frutos.» No entanto, eu dou-vos 14 razões para não alimentarem as vossas raízes, juntamente com uma mensagem para descodificarem:

      I – PRIMA – Ignora o Latim, pois ele é considerado por todos como uma língua morta, que não é falada por ninguém. Além disso, não evolui, não se altera e, por isso, não tem necessidade de acordos ortográficos.
      II – SECUNDA – Retirar-te-á tempo para navegares pelo Facebook ou pelo Twitter, porque é uma língua rigorosa e cheia de regras. Talvez, por isso, lhe chamem a matemática das línguas.
      III – TERTIA – Obrigar-te-á, com certeza, a uma elevada concentração, visto que cada palavra pode ter várias terminações, consoante as diferentes funções sintáticas desempenhadas nas frases.
      IV – QUARTA – Não serás considerado erudito ao estudar essa língua, mas sim uma avis rara que estudará o passado.
      V – QUINTA – Imaginarás e fantasiarás imensas histórias, pois essa disciplina está cheia de mitos e histórias do mundo da ficção.
      VI – SEXTA – Apesar de ser a língua oficial do Vaticano, este já traduz para outras línguas os seus comunicados oficiais escritos em Latim.
      VII – SEPTIMA – A maior parte da literatura latina, quer antiga, quer medieval, quer moderna, já se encontra traduzida noutras línguas.
      VIII – OCTAVA – A missa já não é celebrada em Latim desde 1969, apesar do Papa Bento XVI ter regulamentado essa possibilidade em 2007.
      IX – NONA – Não dará jeito enviares mensagens em Latim para os telemóveis dos teus colegas, porque eles dificilmente te compreenderão.
      X – DECIMA – Obrigar-te-á a conhecer a origem de muitas palavras da nossa língua.
      XI – UNDECIMA – Qualquer aluno de Direito sabe que a legislação atual se rege pelo Direito Romano e que existe já tradução para todas as expressões usadas por aquela ciência da justiça.
      XII – DUODECIMA – Apesar de haver livros do Astérix e Obélix em Latim, nem estes heróis o compreendiam ou suportavam, pois eles resistiram, anos e anos, aos romanos no seu reduto da Gália.
      XIII – TERTIA DECIMA – Já ninguém olha para as inscrições latinas espalhadas pela nossa sociedade com o intuito ou curiosidade de saber o que significam.
      XIV – QUARTA DECIMA – Não há necessidade de perdermos o nosso tempo a tentar descodificar esse idioma, pois quando temos sede, já não precisamos de ir beber água a uma fonte; podemos saciá-la em qualquer língua ou tradução.

Se te inscreveres na disciplina de Latim, descobrirás ainda mais algumas desvantagens…

Post Scriptum – Encontrarás a chave da descodificação da minha mensagem na primeira letra das primeiras seis razões

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Εὐχαριστώ, ̓Ελλάδα

Se isto para ti é Grego e vais frequentar o 12º ano, alegra-te, pois é possível estudares na tua escola a língua-berço da filosofia e dos jogos olímpicos. Com certeza que já encontraste referências ao Grego Clássico que, tal como no caso do Latim, subsistem na nossa atualidade; elas explicam-nos o significado de muitas palavras, como, por exemplo, “Nike” [Νίκη] que significa “vitória” e “Ariston” [ά͗ριστον] – “excelente” ou “o melhor”.
De facto, já terás encontrado a maior parte dos caracteres gregos, hoje muito usados pelas ciências. A própria palavra “alfabeto” provém das duas primeiras letras daquele alfabeto grego: alfa [α] + beta [β]. A palavra “caligrafia” provém da junção de duas: καλή (bela) + γραφή [grafia]. Deves ter reparado também que a maioria dos nomes usados pela Medicina é de origem grega; se compreendermos o significado de algumas palavras dessa língua, facilmente desmoronaremos enormes Adamastores da nossa língua. Assim, se soubermos que ω͗τός [ôtós*] significa “ouvido”, que ρ͑ινός [rinós*] significa “nariz” e que λάρυγγος [láringos*] que significa “laringe” ou “garganta”, facilmente percebemos que “otorrinolaringologista” é um médico especializado em doenças dos ouvidos, do nariz e da garganta. Na verdade, consultamo-lo quando temos uma “otite” (inflamação no ouvido), uma “rinite” (inflamação no nariz), ou uma “laringite” (inflamação na garganta).
Também os prefixos gregos hiper- [υ͑πέρ] e hipo- [υ͑πό], que significam, respetivamente, “em cima” e “em baixo” nos ajudam a compreender melhor os hipónimos e os hiperónimos e também a distinguir quem tem tensão alta (hipertensão) ou baixa (hipotensão)… E se um médico nos receitar um “antipirético” [αντί (contra) + πυρός (calor,fogo)] saberemos que estamos a tomar um medicamento para nos baixar a febre.
Não me vou alongar nem maçar-vos com mais exemplos; deixo-os, não para as Calendas Gregas, que não existem, pois eram os romanos que as contavam no primeiro dia de cada mês, mas para outros textos que nos levarão também a agradecer à Grécia por esta admirável herança: Obrigado, Grécia! [Εὐχαριστώ,  ̓Ελλάδα!]

[*] – Transliterações para auxiliar a leitura

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Carpe Ελληνικά: O Latim não é para mim… e ao Grego nem lhe pego…

            Parafraseando uma professora de Latim duma Faculdade Brasileira “as línguas não morrem; o que morre são os falantes da língua.” Na verdade, embora muitos continuem a dizer, carinhosamente, que o Latim morreu, ele continua a ser língua oficial do Vaticano e a ser utilizado nos mais diversos campos; desde o supermercado ao parlamento.
           O Latim não é para mim, i.e. [id est – isto é], dá muito trabalho perceber, e.g. [exempli gratia - por exemplo], que “ignição” deriva de ignis que significa “fogo”; custa perceber que, quando ligamos a ignição da nossa viatura, estamos a dar fogo às velas do motor… E que terá a palavra equus [cavalo] a ver com “equestre” e “equitação”? Ou pauper [pobre] com “paupérrimo”? Ou satis [suficiente] com “satisfeito”? Ou digitus [dedo] com “digital”? Ou lapis [pedra] com “lápis”, “lápide” ou “delapidar”? Ou bellum [guerra] com “bélico”? Ou urbem [cidade] com “urbano”? Ou omne [tudo] com “omnisciente” ou “omnívoro”? Ou genus [origem] com “genes”, “género” ou “Génesis”? Ou ludus [jogo] com “lúdico” ou “ludoteca”? Ou castrum [castelo] com “Castro Marim” ou “albicastrense”? Ou veteres [velhos] com “veteranos”? Ou docere [ensinar] com “docente” e discere [aprender] com “discente”?
Se olharmos também para a palavra nauta, que significa “marinheiro”, percebemos melhor as palavras “astronauta” (marinheiro dos astros); “cosmonauta” (marinheiro do cosmo/Universo); ou até “internauta” (marinheiro ou navegante da Internet); poderia ainda associar nauta ao navio Nautilus da ficção de Júlio Verne…
Poderíamos também aprender com o estudo do Grego clássico, mas eu ao Grego nem lhe pego… Parece-me ainda mais cansativo olhar para a última palavra apresentada no parágrafo anterior e verificar que nauta entrou no Latim a partir do Grego ναύτας; daí os ἀργοναύτας [argonautas] serem os brilhantes marinheiros da nau άργος [argos = brilhante]. Apresentarei exemplos dessa utilidade no meu próximo texto; agora deixo apenas alguns exemplos desta última língua que enriqueceram a nossa, em particular, o meio escolar: φίλος (amigo) + σοφία (sabedoria) = [filosofia]; βίος (vida) + λόγος (estudo) = [biologia]; βιβλίον (livro) + θηκή (depósito) = [biblioteca]; γεω (terra) + γραφία (escrita) = [geografia]; φωτός (luz) + γραφία (escrita) = [fotografia]; κυμική [química]; φυσική [física]; γράμματα [gramática]; ἱστορίν [história]; γιμναστική [ginástica]; μαθηματικά [matemática]…
Como estamos em κρίσις [crise], terminarei este texto com vontade de pedir a eutanásia [εύ (bem; com bondade) + θάνατος (morte)] da política [πολιτική] atual e a pedir também a devolução da democracia [δῆμος (povo) + κράτος (poder)].

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

UM DIA SEM LATIM… SÃO FLORES MORT@S NUM JARDIM



Há já muitos anos que conseguimos passar um dia completo sem “tropeçarmos” no Latim, visto que ele morreu e já não é possível estudá-lo nem encontrá-lo no quotidiano.
À noite adormeço e sonho que estou novamente in illo tempore, quando os jardins eram floridos: acordo numa villae, ou num duplex que comprei fora da urbe para descansar no ager publicus. O meu dia começa com um banho relaxante guarnecido de lux, sanex ou nivea; depois da roupa, calço umas sapatilhas ASICS [Anima sana in corpore sanum – Alma sã num corpo são]; é condição sina qua non  tomar um pequeno-almoço frugal acompanhado por lácteos agros; saio de casa e passo num quiosque para comprar a última edição fac-simile [faz semelhante= cópia] da “Mensagem” [Mens agit molem] de Fernando Pessoa; aproveito ainda para tomar um café expresso [espremido]; entretanto chego atrasado ao trabalho e o meu patrão diz-me que tem andado a “gastar o seu Latim” quando me fala da necessidade de pontualidade; almoço no Forum e regresso ao meu posto de trabalho, a Vobis [para vocês]; mesmo ao chegar à porta contribuo para a Caritas [caridade]; na loja ao lado, na Imaginarium, vejo sorrisos de crianças; do outro lado, na Boticário, vejo alguém que pensa que Carpe diem é apenas o nome dum filme ou o nome dum perfume; de regresso a casa passo pelo mecânico para compor o turbo do meu Focus; à noite, depois de jantar, ajudo os meus filhos com trabalhos sobre o mapa mundi e sobre o nosso sistema solar.
Este não teria sido propriamente um dia muito feliz, pois não frequentei nenhum SPA [Sanum per aquam], mas poderia ter sido bastante pior: se tivesse ido responder ao tribunal [Domus Iustitiae], visto que Dura lex, sed lex; se não conseguisse acabar as palavras cruzadas do jornal enquanto estava numa sala de espera, por não saber as abreviaturas dalguns elementos da tabela periódica; se tivesse sido assaltado ou atingido por uma magnum [claro que não falo de gelados]; se ficasse sem saldo no meu telemóvel da Optimus; se o meu esquentador Vulcano resolvesse entrar em erupção…
Não quero ser uma persona non grata nem maçar alguém com o meu modus vivendi. Quero apenas concluir, em jeito de despertar, que terminaria esse dia com a ida para a cama e arriscaria, incautus, um coitus interruptus ou talvez usasse um preventivo durex.

terça-feira, 11 de junho de 2013

O LATIM MORREU! NÃO FAZ FALTA, POR AQUI! - ou - O LATIM MORREU? NÃO, FAZ FALTA, POR AQUI!


Antes de falar no James Bond, na Legião Francesa e nos Marines norte-americanos, queria homenagear um professor de Latim que dizia que, tal como o Amor, Labor omnia vincit [O amor/o trabalho vence tudo]; de seguida laureava-nos com o lema dos Jogos Olímpicos – Citius, altius, fortius [mais rápido, mais longe, mais forte] – incentivando-nos a darmos sempre o melhor de nós próprios à maneira de Ricardo Reis. Costumava ainda provocar-nos sobre a utilidade dessa língua e concluía que o Latim leva o aluno a estudar para aprender, em vez de estudar apenas para passar de ano; chamava ao seu estudo a arte de raciocinar.
O Latim foi sempre considerado a língua da ciência, como se pode ver, quer pelos nomes das plantas, quer pelos elementos da tabela periódica, cujas abreviaturas dele germinaram. No entanto, em qualquer sítio onde mencionemos o Latim, ouve-se de imediato alguém a referir-se a ele como uma língua morta. De facto, há muita coisa que já morreu e que continua a ser importante para nós… Aliás, até há algumas vantagens em estudar uma “língua morta”; ela não evolui, isto é, não tem (des)acordos ortográficos…
Para todos os que acreditam que aquela língua morreu, vou referir alguns exemplos em que aquela língua, eruditamente, “dá vida” a lemas/logótipos de países, estados e organizações: Estados Unidos da América (EUA) e Sport Lisboa e Benfica (SLB) – “E pluribus unum” [De muitos, um]; Guarda costeira e Marines norte-americanos – “Semper paratus” [Sempre pronto] e “Semper fidelis” [Sempre fiéis], respetivamente; Escócia – “Nemo me impune lacessit” [Ninguém me fere impunemente]; Canadá – “A mari ad mare” [De mar a mar]; Estado do Rio de Janeiro – “Recte rempublicam gerere” [Gerir a coisa pública (República) com retidão]; Legião Estrangeira Francesa – “Legio patria nostra” [A Legião é a nossa pátria]; Justiça portuguesa (sim, também tem um lema em Latim!) – “Ignorantia iuris neminem excusat” [O desconhecimento da lei não impede o seu cumprimento]; Força aérea portuguesa – “Ex mero motu” [Por mérito próprio]; Academia militar portuguesa – “Dulcis et decorum est pro patria mori” [Doce e honroso é morrer pela pátria]; cidade de Manchester – “Superbia in praelia” [Orgulho no combate]; Brasão da família de James Bond – “Orbis non sufficit” [O mundo não é o bastante]; Apollo 13 – “Ex Luna, Scientia” [Conhecimento a partir da Lua].
Como pudemos ver, a língua de Virgílio e Horácio não está assim tão morta como dizem. Onde uns leem “O Latim morreu! Não faz falta, por aqui”, outros compreenderão um pequeno erro de pontuação: “O Latim morreu? Não, faz falta, por aqui”. De facto, nós exalamo-lo em qualquer parte, às vezes até onde menos esperamos. Quanto ao seu ensino nas escolas portuguesas, já não sei se a podemos observar com tanta vitalidade, no entanto, como dizia Cícero, “Non deterret sapientem mors” [A morte não detém os sábios].

terça-feira, 22 de maio de 2012

Fénix


Almeida Garrett negar-se-ia a viajar pela minha terra, se soubesse que por cá já quase não se estuda o Latim. Na verdade, dizia ele, num texto sobre a educação: «O Grego e o Latim são necessários elementos desta educação nobre. […] E uma vocação pública, não pode sem vergonha ignorar as belas-letras e os clássicos.» O mesmo autor acrescenta ainda que «é impossível escrever bem em Português, em Castelhano, em qualquer das línguas do Ocidente da Europa, sem saber Grego, e principalmente Latim, como era impossível aos escritores de Roma fazê-lo bem na sua, sem conhecer a de Atenas.»
Luís de Camões, que ajudou a renascer o espírito dos antigos clássicos, bebendo das «águas do Parnaso» e colocando os deuses romanos a obedecerem à vontade dos lusitanos, evitaria escrever a sua epopeia, porque os filhos de Luso, qualquer dia, nem conhecerão o seu pai e toda a cultura que o envolve.
         O Pe. António Vieira, se adivinhasse o futuro que a língua de Horácio ia ter em Portugal, abandonaria todas as suas referências latinas que abrilhantam a estilística e retórica dos seus sermões e não pregaria aos peixes, mas sim a cães, pois eles, pelo menos, sabem latir…
Fernando Pessoa deixaria outra Mensagem, sem evidências latinas, pois não serão compreendidas por ninguém num futuro próximo. Além disso, o seu heterónimo classicista abandonaria os seus ideais epicuristas e estoicistas para escrever odes infinitas, queixando-se da excessiva tranquilidade e indiferença com que o Latim vai morrendo nas nossas escolas.
É urgente um novo renascimento! Se queremos que a nossa «Última flor do Lácio» não murche e se enfraqueça cada vez mais, devemos alimentar as suas raízes, fazendo renascer das cinzas a cultura e as línguas clássicas, tal como uma Fénix Renascida, ou o Sol que, depois de posto, ressurge para um novo dia.