domingo, 11 de dezembro de 2011

Guerra de Troi(k)a


          Passados mais de trinta séculos, o invicto povo helénico sofre agora as represálias da destruição da cidade de Eneias. Não há agora entranhas equestres, nem mil artimanhas odisseicas que salvem aquele país duma verdadeira tragédia à sua maneira clássica.
       Também os filhos de Luso estão agora sob fogo da Troi(k)a! A que se deverá? Talvez se deva ao engenhoso Ulisses, que terá fundado a nossa urbe Ulissiponense, depois de ter contribuído para a destruição de Troia. Além disso, também ele suportou, durante anos, a fúria de Neptuno, enfrentando os obstáculos do mar, que o povo lusitano repetiu há cinco séculos atrás. Aquele herói enfrentaria hoje, não Cila e Caríbdis, não Polifemo ou qualquer tipo de feiticeira Circe, não o cão guardião do Hades, mas outros monstros mais poderosos como o novo cerberus de três cabeças (FMI, BCE e CE), o atual grifo ou centauro “Merkosy”, o Polidéfice, o Jardinguém e outros tantos circicranos, que transformam o comum dos “marinheiros”, não em porcos, mas em “bananas”… No entanto, aquele herói homérico enfrentaria também grandes tempestades… Não necessitaria de consultar oráculos acerca do destino deste país, pois todos veem naufrágios certos, causados por ninfas governativas, que nos “comerão” e afundarão, quer oiçamos o seu pérfido canto, ou o coloquemos a um canto.
As terras romanas, fundadas pela geração de Eneias, também já estão a ferro e fogo do Cerberus atual; esse protagonista da Eneida fugiu da Troia que foi destruída pelos gregos; agora a nova Troi(k)a vem destruir, não só os gregos e latinos, mas também todos os que beberam “a água do Parnaso”, isto é, todos os que se inspiraram na poesia e cultura desse país onde está situado esse monte. É irónico vermos o berço da democracia, da cultura e da civilização ser atacado com tanto desdém.
Como é que esta história acaba? Uns dirão que andaremos mais uns anos como Ulisses a navegar sem rumo certo, outros continuarão a culpabilizar a ninfa Calípsocras, outros ainda auguram que está para chegar uma nova perestroika, outros, por fim, acham que o salvador será D. Sebastião, “quer venha, ou não”…

sábado, 22 de outubro de 2011

MATEMATIM OU LATINÁTICA?


Dizia um velho professor de matemática duma universidade brasileira: “Deem-me um bom aluno de latim, que eu farei dele um grande matemático”.
A que se deverá tal afirmação? Talvez conheça estudos que dizem que a língua latina leva a uma melhoria na concentração dos alunos, ou que eles passam a resistir mais a tarefas complexas, tornando-os mais bem sucedidos em qualquer área. Ouve-se também que esta língua melhora o raciocínio lógico e a memória. De facto, a nossa lingua mater prepara-os para isso… tal como a matemática… Não é por acaso que chamam ao latim a “matemática das línguas”. Há, inclusive, quem diga que aprendê-lo é tão saudável como jogar xadrez.
Se isto é verdade? Não sei, nem tenho estudos que o comprovem, no entanto apraz-me dizer que aquela língua tem influência nalgumas línguas vivas e é fonte inesgotável dos mundos científico e académico, assoberbando-os de erudição.
Apesar disso, também estou de acordo com quem pensa exatamente o contrário, pois “Primus vivere, deinde philosophare”.

sábado, 26 de março de 2011

Adotas ou não adoptas o novo acordo?

Côm a êntráda âim vigôr du nôvu acôrdu ortugráficu, ábresse máis huma caicha de Pandóra. (Sem acordo algum, todos conseguiram compreender, sem dificuldade, a frase anterior).


Fernando Pessoa dizia da Coca-Cola que “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. O mesmo se está a passar com este novo acordo ortográfico; aliás, a ortografia de determinadas palavras estranha-se tanto, que chega a causar algumas eructações, tal como acontece ao bebermos aquela bebida. Entramos num bota abaixo de pês, tês e cês que já se vê gente a fazer uma hipercorrecção e tirarem-nos mesmo nas palavras onde são pronunciadas. (Já vi escrita a palavra “fição”, tornando ficcional qualquer acordo). Ao ler certas palavras agora, parece-me vê-las despidas, estropiadas! Parece o mesmo que retirar o “h” à palavra “homem”; a palavra perde logo toda a sua virilidade! Além destas alterações, vê-se informação divergente na Internet, aumentando mais a incerteza. Também a aceitação de duplas grafias provocará alguns desacordos. Desaparecem alguns acentos e o hífen, nalguns casos, tornou-se facultativo, o que invalida qualquer unificação ortográfica; para aumentar mais ainda a incerteza, há excepções!
Se foi para aproximar a ortografia da oralidade, por que é que não passamos a escrever todas as palavras terminadas em “o” (átono) com um “u”, que é exactamente aquilo que pronunciamos?! (carro > carru; menino > meninu; copu > copu; tudo > tudu…) Por que é que não substituímos também, por exemplo, as palavras “venho”, “tenho”, “lenha” por “vanho”, “tanho”, “lanha”? E já agora, se é para caírem as consoantes mudas, caia o “h” também! Simplifiquemos (ou compliquemos) até à loucura!
Fernando Pessoa dizia também que A minha pátria é a língua portuguesa”; ao alterarmos a língua de Pessoa e de Camões, estamos a mudar a nossa pátria (nos tempos que correm, não é coisa que não tivéssemos pensado já!) Como não somos nós que mandamos, resta-nos fazer o que se fazia na antiga Roma; quando ninguém podia fazer mais nada, restava-lhe a opção de protestar ou vaiar a metrópole: «Quem tem boca vaia Roma!»

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Fiat Lux


Ouvimos há dias, do ministro da defesa, Augusto Santos Silva, um discurso mitológico. Do ministro da defesa? Sim, dele mesmo! Num emaranhado de analogias e alusões aos deuses pagãos da mitologia romana, ouvimo-lo orar, na Assembleia da República, com grande retórica. Pensei de imediato que estivesse a defender o regresso a uma cultura de valores, de princípios e de saberes, ou não tivesse ele sido ministro da educação na viragem do século. Ao ouvir mais atentamente, verifiquei que era apenas mais um discurso irónico e cínico, típico da classe política a que já nos habituámos.
Num acto de contrição, lembrei-me que ministro deriva da palavra latina minister, que significa “servidor, escravo, subordinado, instigador” – talvez o “malhar na direita” venha deste último! Se o seu cargo derivasse da palavra magister, ele seria certamente um professor ou um mestre (significados literais dessa palavra) e teríamos ouvido dele uma verdadeira aula magistral… Veja-se a ironia e a inversão semântica dos papéis dos ministros e dos professores actuais; estes chefiavam e agora servem, aqueles serviam e agora chefiam…
Comemorámos também recentemente o centésimo aniversário da nossa res publica; a sociedade perfeita e harmónica idealizada por Platão tornou-se uma realidade para os filhos de Luso há cem anos. Passado um século, continuamos cada vez mais dentro da caverna e mais distantes do sol, pois ele é ofuscado pela poeira do país das maravilhas de Sócrates (o actual, claro!). Sorte contrária tiveram, felizmente, os mineiros chilenos, que graças à solidariedade humana, conseguiram sair do reino de Vulcano e voltar a ver a luz de Apolo.
Fiat lux (faça-se luz) em toda a humanidade e ela perdurará, caso contrário, os valores universais perder-se-ão. E qual será a consequência disso? O que nos acontecerá? “Culpa est non praevidere quod facile potest evenire:” - É culpa não prever o que facilmente pode acontecer.

sábado, 22 de maio de 2010

Latim (en)cantado


O Sumo Pontífice visitou recentemente o nosso país e ouvimo-lo orar e cantar em Latim durante as celebrações… Se ele podia ter cantado em Português?... Se calhar até podia, mas não seria a mesma língua divina que enche a igreja de erudição e cultura… Se calhar até podia, mas não usaria a nossa lingua mater… Se calhar até podia, mas não usaria uma língua falada, no nosso território, nos tempos em que se valorizava a língua… Se calhar até podia, mas não usaria uma língua de valores, uma língua de cultura, uma língua das ciências, uma língua das línguas, uma língua eterna…
A palavra «Pontífice» vem do Latim e é formada pelas palavras pontem e facio; à letra significa “fazer a ponte”. Realmente foi o que o Papa veio fazer a Portugal: fazer uma ponte entre Deus e os portugueses… Alguém mais distraído ou agarrado a uma tradução demasiado literal terá pensado que a vinda de Sua Santidade (e não Sua Eminência como o nosso Primeiro Ministro o tratou!), seria motivo para se fazer uma ponte, ou uma tolerância de ponto… Terá sido vantajoso para a nossa economia?... Pelo menos ninguém interpretou a sua vinda com a necessidade de se construir uma terceira travessia sobre o rio Tejo…
Que bom que seria aparecer no governo um pontífice linguístico que fizesse uma ponte entre o estado sincopado, abreviado e deturpado com que se escreve hoje a nossa língua e época áurea em que a nossa língua mãe era estudada por todos… Até quando é que continuaremos a considerar o actual Português a língua de Camões, do Pe. António Vieira, de Eça de Queirós, de Fernando Pessoa, e de muitos outros?... Nos blogs e chats lê-se um Português cuja regra é escrever sem regra… Mas de quem é a culpa? O romeiro de Frei Luís de Sousa diria “De ninguém!”; eu diria que “É de alguém” e acrescentaria que “É minha também!”

Latim! Não há outra Língua assim!


O Papa Bento XVI quer reabilitar a missa em Latim. Ouvem-se críticas por todo o lado, mesmo dentro da igreja católica. Posto de parte nos anos 60, vai tornar-se uma Fénix Renascida. Mas será benéfico para a igreja? Não perderá ainda mais fiéis, por se considerar uma coisa do passado? Esperemos que o efeito seja benéfico e nos consciencializemos da utilidade que há em se estudar Latim.
Os filmes Código Da Vinci e Paixão de Cristo, que “ressuscitaram” a língua latina, fizeram com que aumentasse o número de estudantes de Latim no ensino secundário no Brasil; pena é que em Portugal tivesse havido uma tendência contrária! É que o Latim está a pegar moda por tantos sítios, menos nos países cujas línguas tiveram origem naquela. Na Finlândia, há tertúlias em Latim; há sites de notícias e meteorologia em Latim; há uma rádio com noticiários em Latim; há Chats onde se conversa exclusivamente em Latim; há livros clássicos, de aventuras e até BD traduzidos em Latim: além dos já conhecidos livros do Astérix em Latim, temos agora também a Alice no País das Maravilhas (Alicia in Terra Mirabili), O Perfume (Fragrantia), e mesmo o Harry Potter e a Pedra Filosofal (Harrius Potter et Philosophi Lapis). Imaginem que até já há um Elvis finlandês, pois canta em Latim alguns clássicos daquele cantor: Can’t Help Falling In Love (Non adamare non possum), Now or never (Nunc hic aut numquam) e Love Me Tender (Tedere me ama).
Como é que alguém pode explicar que na Alemanha e na Finlândia, que são países de línguas não românicas, tenham o Latim nos seus currículos escolares como disciplina obrigatória e nós, cuja língua deriva do Latim, o tenhamos apenas como opção? Eles consideram-no a matemática das línguas, a língua das ciências, a língua das línguas, uma língua eterna! Na Áustria, qualquer engenheiro tem sete anos de Latim; vá-se lá saber porquê!? Modernices? Raciocínio? Deixo ao vosso critério a solução para esta questão...
Ao abandonarmos assim a nossa língua mãe, arriscamo-nos a deixar morrer também o nosso Português, dentro em breve, pois ele é cada vez mais mal tratado entre nós. Enquanto isso não acontece, amemo-nos uns aos outros, porque, como diz Virgílio, omnia amor uincit (o amor vence tudo).

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Afim do Latim?


Dizia um velho professor de Latim: «O latim é como os xaropes antigos: amargos, mas curam». Maior amargura é abandonarmos uma herança linguística e cultural da qual beberam, entre muitos outros, Camões, Fernando Pessoa, Vergílio Ferreira. Na verdade, temos vindo a esquecer as origens da nossa cultura. Vejamos alguns exemplos: Natal significa “Nascimento” (cf. Taxa de natalidade; terra natal); Carnaval (carnem vale) significa “adeus à carne”, pois entra-se num período de abstinência quaresmal; estas celebrações passaram a ser invadidas pelo barrete da Lapónia e o samba do Brasil, para não falar do coelhinho da Páscoa, que até põe ovinhos de chocolate; a palavra Magister, que significa “mestre”, “chefe”, “professor”, forma-se com o advérbio magis (mais) e a palavra Minister, que significa “ministro”, “conselheiro”, “servente”, forma-se com o advérbio minus (menos); ou seja, o professor era alguém que chefiava e o ministro alguém que servia; veja-se o que acontece hoje...
Já desde o antigo direito romano se fazia o habeas corpus (toma o teu corpo), para se restituir a liberdade a alguém que tivesse sido detido ilegalmente: dura lex, sed lex (a lei é dura, mas é lei). Hoje em dia nem a vox populi (voz do povo) consegue absolver tantos "inocentes"... na nossa Rem Publicam. Valha-nos ao menos o significado da palavra “Misericórdia”, que se formou a partir das palavras miser (miséria; miserável) e cor, cordis (coração); representa, então, um sentimento de compadecimento, colocando nos nossos corações a miséria dos outros.
Em Portugal muita coisa está mal. No entanto, continuamos a alimentar-nos de pão e circo (panem et circenses) à maneira romana, mas também é preciso, porque mens sana in corpore sanum (Mente sã num corpo são).

quinta-feira, 20 de maio de 2010

PARA QUÊ ESTUDAR LATIM?

       Dizia um velho professor de Latim: «Deus nos livre da mula que faz him e da mulher que sabe Latim». Nunca percebi muito bem o quis ele dizer com isso. Teimosia?! Sabedoria?! Deixo ao vosso critério a descodificação da mensagem desta frase, na certeza de ser preferível a imagem duma mulher que sabe Latim.
O Latim é conotado como uma língua que cheira a mofo, a colégios, a seminários e a padres. No entanto, utilizamos a nossa língua mãe mais vezes do que julgamos: concorremos a uma emprego e enviamos o Curriculum Vitae; mudamos de apartamento para comprarmos um duplex; compramos roupa na Vivere e na Decenio; saboreamos um gelado magnum; lemos E pluribus unum no emblema do Benfica; comemos chocolates Mars e queijos TerraNostra; bebemos águas Luso, Vitalis e leite Agros; folheamos as revistas Quo e Lux; adquirimos um Fiat Uno ou um Focus, com ou sem Turbo; lemos Primus inter Pares nos maços de tabaco SG Ventil e Veni, Vidi, Vici no Marlboro; lavamo-nos com Sanex; hidratamo-nos com Nivea; jogamos Lego; compramos na Vobis, na Natura e na Imaginarium; metemos gasolina Super; temos um telemóvel da Optimus ou um telefone com ligação à Novis; contribuímos para a Caritas; queixamo-nos à Quercus; relaxamos no SPA (Salus per aquam) de um Hotel; o nosso esquentador é Vulcano; usamos lentes Varilux; temos um primo que trabalha na Securitas; realizamos um exame Ad Hoc; possuímos um estilo muito sui generis; desejamos Carpe diem (aproveita o dia) ou fac ut vivas (goza a vida) aos nossos amigos; arranjamos um alibi (outro aí) quando vamos responder a tribunal (Domus Iustitiae); repetimos ipsis verbis um conselho que nos deram; passeamos no Forum; analisamos a narração in medias res; estudamos o Homo Sapiens e o seu Habitat; passamos à tangente; calculamos o rendimento per capita; a tabela periódica da Química está cheia de abreviaturas latinas; terminamos uma carta com um P.S. (Post Scriptum); etc (et cetera).
Será que já nos ocorreu que até o Inglês usa palavras latinas? Vejamos: exit significa “sair” em Latim e delete significa “destruir”. E os dias da semana? Nisto, os ingleses foram mais fiéis ao Latim que nós Portugueses: para os romanos o Domingo era o dia do Sol (solis dies) – os ingleses chamam ao Domingo “Sunday”, ou seja, o dia do Sol; a Segunda-feira era o dia da Lua (lunae dies) – em inglês diz-se “Monday”, isto é, o dia da Lua;...
Podíamos aprender também com a Alemanha: o alemão é uma língua não românica, pertencente às línguas germânicas. No entanto, é o país da Europa onde o Latim mais se aprofunda. Em Portugal, há muito que se fala de insucesso à disciplina de Português; o nosso Ministro da Educação sabe que uma forma de atenuar esse insucesso seria estabelecer, pelo menos, um ano de Latim obrigatório, no ensino secundário. Evitar-se-ia que, qualquer dia, seja regra escrever sem regras. Se tal acontecer, a culpa não será nossa, pois errare humanum est.